Gosto de ir à igreja. A missa dominical são noventa minutos em que penso sobre minhas limitações humanas (que não são poucas). Admiro os rituais católicos porque lhes compreendo o sentido. Mas a verdade é que, durante aquela hora e meia, tento encontrar a paz. Às vezes, consigo. Numa de minhas canções prediletas, surgem os versos "Céu e Terra passarão, mas Sua palavra não passará". A concordância verbal está religiosamente correta. O primeiro verbo, no plural, concorda com o sujeito composto "Céu e Terra"; na segunda oração, o verbo aparece no singular para concordar com "Sua palavra", o sujeito da oração. A frase pode ser vista no Evangelho de São Lucas, capítulo 21, versículo 33. A dúvida é a seguinte: se, na primeira oração, o verbo fosse colocado antes do sujeito, o plural continuaria sendo obrigatório? Teríamos de dizer "Passarão Céu e Terra"? Marisa Monte, numa canção chamada "Gentileza", escreve: "Só ficou no muro tristeza e tinta fresca". Observou direitinho? O verbo está no singular, mas o sujeito é composto: "tristeza e tinha fresca". Vacilo da Marisa? Não. Opção. Quando o verbo aparece antes do sujeito composto, é possível concordar apenas com o núcleo mais próximo. A Marisa usa "ficou" concordando apenas com "tristeza". Poderia usar o plural: "Só ficaram no muro tristeza e tinta fresca", concordando com os núcleos "tristeza" e "tinta". E o caso do "Céu e Terra passarão"? Bom, se trouxéssemos o verbo para o início da oração, teríamos duas opções: manter o plural ("Passarão Céu e Terra") ou fazer a concordância com o núcleo mais próximo, deixando o verbo no singular ("Passará Céu e Terra"). Mas isso vai depender da intenção do autor. Quem opta pelo plural faz a concordância lógica, levando em consideração os dois núcleos do sujeito. Quem opta pelo singular enfatiza o primeiro núcleo. No caso da música da Marisa Monte, em que aparece o verso "Só ficou no muro tristeza e tinta fresca", a autora enfatiza a tristeza, uma vez que se refere à tristeza de ver as pinturas do "poeta Gentileza" destruídas por pichações. No caso de "Passará Céu e Terra", enfatiza-se o "Céu", reconhecendo-o como mais importante que a Terra: o Céu passando, a Terra passaria também. Então, antes de atribuir conceitos como "certo" ou "errado" para determinadas construções gramaticais, é preciso observar a intenção do autor. Cada texto tem um tipo de "gramática". O texto poético não é escrito com as mesmas características do texto jornalístico. O texto jornalístico não tem as liberdades do texto publicitário. Bom-senso nessas horas conta muito. Um forte abraço. Até a próxima semana. |