Sábado passado, a maior casa de shows da cidade ficou lotada durante a apresentação das bandas "Nós 4" e "Engenheiros do Hawaii". É um bom sinal. Nem só de vulgaridade se vive. Ouvir milhares de jovens (e alguns nem tão jovens assim) cantando músicas de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan em versões mais pop (é isso que a "Nós 4" faz) emocionou-me. Durante a noite, apenas uma briga, provavelmente provocada por pessoas habituadas a freqüentar outro tipo de "evento cultural". No mais, uma celebração de alegria e bom gosto. E a julgar pela quantidade de gente, há espaço na cidade para shows dessa natureza. Não é todo o mundo que financia a vulgaridade ou, pior ainda, que sai em defesa dela. Um momento no mínimo foi antológico: o Palladium inteiro cantando "Trem das Onze", de Adoniran Barbosa. Seus versos dizem: "Não posso ficar nem mais um minuto com você / Sinto muito, amor, mas não pode ser. / Moro em Jaçanã... se eu perder esse trem, que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã(...)". Arrepiante. A música encerrou o show da banda "Nós 4" e deu a temática do show dos Engenheiros: bom gosto, sensibilidade, apuro musical. Quem foi passou a noite inteira sem ouvir palavras chulas ou ver coreografias vulgares no palco. Como professor, meu dever é esse: alertar os jovens, dia a dia, sobre como eles são usados para o enriquecimento alheio, principalmente de quem não contribui em nada com a formação moral deles. Educar não é promover eventos de qualquer natureza. Isso é comércio. Educar é orientar, mostrar caminhos. Segue quem quiser. Em "Trem das Onze", aparece a palavra "Jacanã". Jaçanã é um distrito situado na Zona Norte da cidade de São Paulo, formando a subprefeitura com o bairro Tremembé. Num concurso realizado pela Rede Globo, "Trem das Onze" foi escolhida pela população de São Paulo como a música que mais "representa a cidade". E para relembrar um aspecto gramatical, observe o acento indicativo de crase em "às onze horas": usamos este acento diante de locuções adverbiais indicativas de horas. Assim, escreve-se "O trem que sai às onze horas", "Trabalho das 6h às 12h", "Ela saiu daqui à 1h30min" (neste último caso, não confunda com "Ela saiu daqui há uma hora e trinta minutos", em que há referência a intervalo de tempo, e não ao horário exato). O Palladium está de parabéns por oportunizar aos caruaruenses um show de alto nível e, acima de tudo, de respeito ao público. Boas músicas, bons músicos, letras inteligentes e memoráveis. Há salvação. Nem todos patrocinam a vulgaridade. |