Confesso que novelas não me atraem. Simplesmente não tenho paciência para acompanhar, dia a dia, o desenrolar das mesmas tramas. Mas semana passada, num instante em que, freneticamente, trocava de canais pelo controle remoto, vi a personagem da Letícia Spiller, da novela Duas Caras, soltar a seguinte frase durante um diálogo com o ator Oscar Magrini: "-Sua filha é uma gênia!". Quem teve a genialidade de escrever isso no roteiro da atriz? Letícia já foi Paquita da Xuxa. Isso talvez explique a palavra "gênia". Xuxa, quando tinha um programa voltado aos jovens no qual entrevistava "celebridades", costumava pronunciar a palavra "ídola". Cansei de ouvir Xuxa perguntando quem era a "ídola" do entrevistado. Letícia, ao usar "gênia", envereda pelo mesmo caminho do deslize gramatical. "Ídolo" e "gênio" são substantivos classificados como "sobrecomuns", ou seja, mesmo se referindo a seres de sexos diferentes, possuem o mesmo gênero: "O ídolo" e "O gênio", para homens ou mulheres. Nada de dizer que Britney Spears é "a ídola" de muitos adolescentes; Britney é "O ídolo". Da mesma forma, a frase da personagem de Letícia Spiller deveria ser: "-Sua filha é um gênio!" Obviamente, novelas tendem a reproduzir o falar das pessoas, e não há nada errado nisso. O problema é que, numa situação como essa, a fala da personagem acaba sendo um péssimo exemplo para quem pretende seguir a norma culta do idioma. Melhor sempre ter cuidado e não levar muito a sério os "gênios" da televisão. |