Um estabelecimento comercial de Caruaru, localizado na famosa rua da Matriz, expõe em sua fachada um imenso painel, no qual se lê, na parte superior, "Se o seu problema é à vista"; na parte inferior, "a gente divide em até 12 vezes sem juros". Nada de surpreendente, se o estabelecimento não fosse especializado em venda de óculos. A frase "Se o seu problema é à vista" causa estranheza na primeira leitura. Isso porque, por se tratar de uma ótica, associamos o termo "a vista" aos olhos. Se alguém diz "O problema dele é a vista", o termo "a vista" não recebe crase obviamente. Entretanto, quando lemos a parte final do painel ("A gente divide em até 12x sem juros"), é que percebemos que o termo "à vista" (com crase) está em oposição a "a prazo" (no caso, o de 12 vezes sem juros). Assim, "à vista" deve mesmo receber o acento grave por se tratar de uma locução adverbial feminina. O interessante do texto é a ambigüidade. Ao escreverem "Se o seu problema é à vista" (com crase, indicando pagamento no ato da compra), os publicitários também permitem a leitura "Se o seu problema é a vista" (sem crase, indicando problemas visuais), texto pertinente a uma ótica. Assim, além de conseguirem dois efeitos com a mesma frase, ainda dão uma aula de crase nesses tempos de desrespeito ao idioma. Parabéns à agência que elaborou o texto. Não custa nada lembrar a todos que trabalham em estabelecimentos comerciais: a locução "à vista" (pagar à vista) deve receber o acento grave (como no anúncio comentado); a locução "a prazo" não, uma vez que é composta por palavra masculina. |