Menelau Júnior
O professor Menelau Júnior é formado em Letras e possui especialização em Língua Portuguesa. É também escritor, apresentador de TV e dá dicas de português também numa emissora de rádio de Caruaru. Leciona desde 1991 e é colunista de VANGUARDA desde 2004.

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Mulher, mulher
"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces/ Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto./ No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida/ E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz". Esses versos, do mestre Vinicius de Moraes, exaltam numa mulher aquilo que todas no âmago têm: "a luz e a vida".
Ó, língua portuguesa, "inculta e bela", como destilas mel quando tuas palavras se dedicam a exultar a mais viva das criaturas. Quando as sílabas encontram forma na descrição de uma mulher, as rimas pobres se tornam poemas, e as frases simples se tornam inesquecíveis.
Ó, língua de Camões, com quantos adjetivos precisas caminhar para que, ao te ajoelhares diante de uma mulher, não faças o papel de um simples bilhete? Que rimas precisas entoar para fazer jus à riqueza semântica adormecida no olhar de uma fêmea? Tu és, língua portuguesa, abençoada, porque em ti a palavra ganha forma de anjo, bate as asas com as metáforas... tudo para escrever sobre a mais sublime das criaturas....
Pobres de nós, estudiosos da gramática, se nos deixarmos engessar pelas regras que parecem querer acorrentar o pensamento. Ao ver uma mulher, caem pelos cantos das páginas as concordâncias e regências, restando apenas a palavra: a palavra em seu estado bruto, amaciada pelo olhar desconstruído diante da obra-prima.
Ó, filha do latim, que condenados ao fogo da ignorância sejam aqueles que fizerem uso de tuas formas para macular a imagem da mulher. Que seus pensamentos ardam no inferno da falta de inspiração... E que tu te reveles, nua e esplendorosa, àqueles que desejarem tocar-te para enaltecer uma mulher. Porque tu, ó língua santa, existes para isso. E todas as outras utilidades estarão sempre presas a essa. E toda a gramática nada significa se não estiver subjugada a isso.
Sem elas, não haveria poesia. Sem elas, a língua não teria razão de existir.
 
 
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