Confessemos: o emprego da 2ª pessoa romantiza a linguagem. O "você" banalizou-se. Os poetas estão aí para mostrar que escrever usando o "tu" é sempre mais "romântico", para não dizer "eloqüente". É bem verdade que, hoje em dia, a mistura no tratamento tornou-se comum, mas nada como encontrar um texto escrito inteiramente na 2ª pessoa. Tomemos por base "Eu sei que vou te amar", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes: "E cada verso meu será pra te dizer/ Que eu sei que vou te amar/ Por toda a minha vida. // Eu sei que vou chorar/ A cada ausência tua eu vou chorar/ Mas cada volta tua há de apagar/ o que essa ausência tua me causou". Toda a canção é escrita usando o tratamento em 2ª pessoa: Jobim e Vinicius rejeitam o "você" para uma declaração ainda mais íntima, em 2ª pessoa. A incomparável dupla volta a usar esse tratamento na belíssima Luíza: "Vem cá, Luíza/ Me dá tua mão/ O teu desejo é sempre o meu desejo/ Vem, me exorciza/ Dá-me tua boca/ E a rosa louca/ Vem me dar um beijo/ E um raio de sol/ Nos teus cabelos/ Como um brilhante que partindo a luz/ Explode em sete cores/ Revelando então os sete mil amores/ Que eu guardei somente pra te dar, Luza". Os poetas dão uma aula de correção gramatical no que se refere ao emprego dos imperativos: as formas "Vem", "dá", "exorciza" estão na 2ª pessoa, em consonância com os pronomes "tua", "teu", "teus" e "te". Então, esse é o recado desta semana: procurando, é possível encontrar belíssimas letras que obedecem rigorosamente à uniformidade pronominal - e o que é melhor, na 2ª pessoa. "Eu sei que vou te amar" e "Luíza" são belos exemplos disso. Obviamente não há problema no emprego da forma "você", mas em poesia o "tu" tem um charme especial. O charme na linguagem faz parte das grandes histórias de amor. Mesmo daquelas que jamais sairão dos versos.
Menelau Júnior é professor de Português |