Menelau Júnior
O professor Menelau Júnior é formado em Letras e possui especialização em Língua Portuguesa. É também escritor, apresentador de TV e dá dicas de português também numa emissora de rádio de Caruaru. Leciona desde 1991 e é colunista de VANGUARDA desde 2004.

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Santa ironia

A linguagem é cheia de artifícios. Os homens inventaram as palavras certamente porque perceberam a necessidade de levar a informação para além do momento da fala. Com o tempo, vieram as várias línguas e sua natural evolução. No caso da língua portuguesa, filha do latim vulgar (o que era falado pelos soldados romanos e pelo povo), as mudanças nunca pararam de acontecer. Às vezes por meio de acordos (como o que entra em vigor no próximo ano), mas quase sempre por meio da imposição popular. A língua é um organismo vivo.
Entretanto, embora a escrita tenha um papel fundamental no desenvolvimento da humanidade, ainda é a fala que nos deleita com criações inusitadas. Isso pode ser comprovado com as ironias. A frase "Ela é muito bonitinha" pode ganhar sentimentos diversos quando falada. Já escrita, não consegue transmitir tanto carinho - ou mesmo a ironia, embora as aspas possam ajudar nesse sentido.
Recentemente, a atriz Angelina Jolie deu à luz gêmeos. Boatos deram conta de que a foto dos bebês valeria 20 milhões de dólares. Darryn Lyone, dono de uma agência de publicidade especializada em fotos de celebridades, quando questionado sobre o assunto, saiu-se com essa: "A única foto que poderia chegar a esse montante seria a de Britney Spears dando à luz um alien".  Impagável.
Esta semana, veio à tona um vídeo em que o presidente americano, George W. Bush, criticava o mercado americano, dizendo que este teria estado "bêbado" e que agora estaria de "ressaca". A ironia, misturada à metáfora, não caiu bem e logo foi chamada de "gafe".
O grande escritor Millôr Fernandes, compreendendo que nem todos os leitores identificam uma ironia no texto, chegou a sugerir a criação de um sinal gráfico, o "ponto de ironia", da mesma forma que temos o ponto final, o ponto de exclamação, o ponto de interrogação. Como o tal "ponto de ironia" jamais foi criado, é preciso que o leitor use a inteligência e a perspicácia para perceber quando as palavras querem dizer o contrário do que está escrito. Na língua portuguesa, as aspas cumprem esse papel. Um governista escreveria que Lula é inocente no caso do afastamento do delegado da Polícia Federal que investigava o caso Dantas. Um oposicionista certamente escreveria que Lula é "inocente". Para um bom entendedor, aspas bastam.

Menelau Júnior é professor de Português

 
 
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