Desde o dia 18 de julho, o mundo do cinema só tem um assunto: O Cavaleiro das Trevas, novo filme do Batman. Dessa vez, o homem de capa preta precisa deter um tresloucado Coringa, seu arqui-rival, interpretado assustadoramente por Heath Ledger, ator que faleceu em janeiro, logo após as filmagens. No filme, o Coringa não está atrás de dinheiro: ele só quer o caos. Irônico, chega a dizer a Batman que o herói é sua outra metade. Vivemos tempos de coringas em muitas de nossas instituições. Como no filme, há bandidos infiltrados na polícia; como no filme, há políticos envolvidos em lavagem de dinheiro; como no filme, quem está do lado da lei às vezes é tomado como vilão. Os recentes escândalos de corrupção revelaram ao país, mais uma vez, indivíduos ainda mais sarcásticos que o Coringa. E piores. O vilão das telas quer apenas o caos; os nossos, querem também dinheiro. Muito dinheiro. Batman é um justiceiro atormentado, solitário. Suas ações parecem até contribuir para o aumento da criminalidade. E é esse conflito entre agir dentro da lei ou fazer justiça a qualquer preço que põe em xeque o destino do herói. É assim que se explica o fascínio sobre o personagem: todos temos um pouco de Batman. Diante dos coringas de Brasília, que parecem estar acima das leis, a justiça com as próprias mãos é tentadora. Entretanto, o filme deixa clara a ambigüidade entre ser herói ou vilão. Batman é um capitão Nascimento vestido de morcego. O Coringa é cada governante corrupto deste país, sempre cínico, sempre tirando proveito de tudo, sempre tentando impedir o trabalho da polícia. Aqui, seguramente os intelectuais que condenaram o capitão Nascimento também condenariam o Batman (sim, são os mesmos que condenam a Globo, a Folha de São Paulo e a revista Veja). Diriam que o Coringa é uma vítima social, um fruto desse mundinho capitalista desigual. Nossos coringas são muito piores. Eles não estão nos morros exibindo metralhadoras para intimidar a polícia. Esses são apenas capangas. Os vilões, assim como no filme, usam terninho. Os vilões, como no filme, estão sempre sorrindo. Nossos coringas, como o do filme, não acreditam na justiça. Talvez precisássemos mesmo de um herói vestido de morcego. E "pobre da pátria que precisa de heróis". Vilões já temos muitos. Sarcásticos. Cínicos. Sorridentes.
Menelau Júnior é professor de Português |