Terça-feira, 26 de agosto, aproximadamente 17h30min. Uma chuva indecisa entre ser chuvisco ou de fato chuva cai sobre a cidade. Na conhecida praça do Rosário, um senhor treme enquanto segura uma placa com a imagem de um candidato a vereador. O senhor não tem nome, não tem perspectiva de vida, não tem um sorriso no rosto. O senhor é apenas um número. Um número na chuva. Não há para onde correr: a poluição visual tomou conta das ruas. Placas, plaquinhas, bâneres, automóveis transformados em panfletos: o circo eleitoral está aí. Nós, os consumidores - perdão, os "eleitores" - temos um cardápio vastíssimo. Tão vasto que, para aqueles que não tiveram muito acesso à informação, acaba ficando difícil escolher. Vamos, mais uma vez, votar em quem conhecemos, em amigos dos nossos amigos, em quem nos der uma cesta básica ou algum trocado. Vamos votar nos números molhados pela chuva, nos homens e mulheres enxutos em seus gabinetes. Alguém vai dizer que a eleição gera empregos temporários. O que chamam de emprego eu chamo de exploração. Passar o dia segurando uma bandeira ou uma placa é desumano. Mas em troca de trocados somos desumanizados. Quem sorri nas plaquinhas não vê o sofrimento de quem as segura. Penso no que nossos candidatos pretendem oferecer aos seguradores de plaquinhas depois que as eleições passarem. Que farão? Como os pobres-coitados vão segurar as contas do lar? Como vão ficar depois que a chuva passar? Há propostas de emprego de verdade para quem passou dias e dias, sob o Sol e sob a chuva, em pé, em troca de alguns poucos reais? Terça-feira, 26 de agosto, aproximadamente 20h23min. Estou terminando de escrever esta coluna. Tenho pressa, porque em poucos minutos começa mais um horário eleitoral. Faço questão de ouvir os candidatos. Quero tentar entender, naqueles poucos minutos, o que eles podem fazer pelo homem que segurava a placa do candidato a vereador. Um homem cujo nome não sei e cujas perspectivas de vida devem limitar-se a viver mais um dia. Um homem que não sorri e que treme de frio quando segura a plaquinha embaixo da chuva. Um homem que, por necessidade, submete-se a atividade tão desumana. Um homem reduzido a um número.
Menelau Júnior é professor de Português menelaujr@uol.com.br |