O último álbum do "Rei" Roberto Carlos, "Duetos", é, diga-se de passagem, um disco bem acima da média, considerando a choradeira sem fim em que se transformou o repertório de Roberto após a morte de sua esposa. Agrada aos que têm mais de 50, com músicas como "Lígia" (Dueto com ninguém menos que Tom Jobim) e "Ternura" (com Wanderléa, eterna amiga a quem Roberto já tentou namorar). Os mais jovens se identificarão com "Além do Horizonte", dueto com o insosso Jota Quest, e "Se eu não te amasse tanto assim", com Ivete Sangalo.
E é nessa última canção que aparece uma forma verbal maltratada pelo brasileiro. "Se eu não te amasse tanto assim,/ Talvez não visse flores por onde eu vim", canta a dupla. Tudo de acordo com o padrão da língua, mas não são poucos os que confundem as formas "vim", "vir" e "vier". Certamente o leitor já ouviu alguém dizendo "Quando você vim aqui...". A linguagem padrão nos mostra que o futuro tem a forma "vier": "Quando você vier aqui...".
A forma "vir" pode ser o infinitivo do verbo "vir" ou o futuro do verbo "ver". Em "É preciso você vir aqui", temos um exemplo do infinitivo do verbo "vir". Já em "Darei o recado quando vir sua irmã", temos o futuro do verbo "ver". Nessa última situação, o mais comum aqui no Brasil é que se use "ver": "Darei o recado quando ver sua irmã". Isso ocorre porque há uma tendência de regularizarmos os verbos.
Portanto, é preciso ter cautela na hora de empregar essas formas verbais: "vim" é o passado do verbo "vir": "Eu vim aqui ontem". "Vir" pode ser um infinitivo ou o futuro do verbo "ver". E "vier" é o futuro do verbo "vir": "E mesmo se vier noite traiçoeira, se a cruz pesada for, Cristo estará contigo", diz a letra de um hino religioso.
Menelau Júnior é professor de Português menelaujr@uol.com.br |