É muito comum que professores de língua portuguesa sejam bombardeados com perguntas do tipo "Qual é o certo?". Tentar explicar a alguém que quer saber "qual é o certo" que, em língua, não há "o certo" é meio complicado. Mas vamos lá.
Nosso sistema de ensino deixou uma herança de rigor extremo quando o assunto é língua. As pessoas dizem que não sabem "falar português" simplesmente porque desconhecem algumas normas estabelecidas pela gramática. Mas é bom entender que "normas", "regras" são conceitos sociais, humanos. Quando as primeiras gramáticas foram criadas (pelos gregos, antes de Cristo), as "normas" foram estabelecidas tomando por base o modo de falar de uma elite. E assim tem sido até então. O que as gramáticas ensinam é apenas uma variedade da língua que possui o prestígio social justamente porque tenta reproduzir a fala de quem tem o prestígio social. Não é à toa que o modo de falar dos nordestinos é vítima de tanto preconceito, afinal de contas nossa região não é detentora do poder político e econômico.
Assim sendo, conceitos como "certo" e "errado" passam a ser extremamente relativos. Seria "certo" ir à praia usando terno e gravata? Creio que não. Então, por que seria "certo" ter de obedecer a regras gramaticais desvinculadas da realidade lingüística do brasileiro quando estamos conversando com amigos, num bate-papo informal?
O policiamento lingüístico continua a exercer fascínio entre as pessoas porque elas continuam acreditando que só existe uma forma "certa" de falar. Isso é impossível quando se estuda uma língua. Ela é fruto do uso de seus usuários, muda conforme a vontade do povo. Para muitos, a língua portuguesa é a de Machado de Assis. Não é. Não é somente a de Machado. É também a dele. Mas é a língua dos Josés, das Marias, dos Severinos espalhados por esse Brasil afora. A língua portuguesa é a do "Nós vamos", mas é também a do "A gente vamos". A valoração de certos falares está intrinsecamente ligada a questões extralingüísticas, como poder econômico e social. As variações não podem ser tomadas como "certas" ou "erradas", simplesmente porque não existem falas "certas" ou "erradas". Existem aquelas que atendem a uma norma-padrão, determinada pelas gramáticas, e aquelas que reproduzem a fala do dia-a-dia, sem preocupações com concordâncias ou regências.
Obviamente, é imprescindível que as pessoas tenham acesso a essa modalidade padrão, que detém o prestígio social e é adotada no mercado de trabalho, nas correspondências oficiais. Mas isso não significa rotular outras formas como "erradas" ou "menores". Conviver com as diferenças é algo que todos aceitam como ideal. Se concordamos que brancos não são melhores que negros, que heterossexuais não são melhores que homossexuais e que ricos não são melhores do que pobres, devemos também reconhecer que não existe uma fala melhor que outras. Existem diferenças que devem ser compreendidas e respeitadas.
Menelau Júnior é professor de Português menelaujr@uol.com.br |