Menelau Júnior
O professor Menelau Júnior é formado em Letras e possui especialização em Língua Portuguesa. É também escritor, apresentador de TV e dá dicas de português também numa emissora de rádio de Caruaru. Leciona desde 1991 e é colunista de VANGUARDA desde 2004.

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“Pegaram ele”

Em sua edição de 15 de outubro, a revista Época trouxe uma matéria sobre a prisão de Marcos Valério, aquele mesmo que ajudou os petistas a montar o esquema do mensalão. O título, "Pegaram ele", usa uma construção consagrada no que se refere ao emprego do pronome, ainda que não seja a recomendada pela norma padrão.

Em latim, as palavras mudavam de forma de acordo com a função sintática. Na nossa língua, isso não ocorre, exceto no caso do uso dos pronomes pessoais. Aprendemos nas aulas de gramática que, quando os pronomes "ele(s)" e "ela(s)" (que têm função de sujeito) funcionam como objeto direto, devem ser substituídos por "o", "os", "a", "as". É essa "regra" que justifica o uso de "Eu a vi" no lugar de "Eu vi ela". Isso é um resquício da língua latina.

Por estar estigmatizada, a forma "Eu vi ela" sofre realmente o policiamento dos falantes. Quando alguém a pronuncia, logo volta atrás e usa o "Eu a vi". Entretanto, isso ocorre praticamente só com essa frase. O brasileiro usa normalmente "Mataram ela", "Encontrei ela", "Conheço ela" ou "Convidei ela" sem nenhum constrangimento gramatical ou policiamento quanto ao uso do pronome.

No caso da revista, a opção pelo "Pegaram ele" no lugar de "Pegaram-no" (sim, quando o verbo termina em "m", acrescenta-se a letra "n" aos pronomes "o", "a", "os" e "as") revela uma tendência irrefreável no idioma. Mesmo sendo o texto jornalístico um exemplo do que chamamos de norma padrão, já podemos verificar nesse gênero textual essas variações não aceitas pela gramática.

Ao optar por "Pegaram ele", Época dá força ao título (força que se perderia com o pronome átono "no") e mostra que, em nome do vigor da linguagem, é possível ir de encontro a uma regra gramatical que não é seguida por quase ninguém. Obviamente, não estamos aqui defendendo o "vale-tudo", mas apenas mostrando que uma língua transcende discussões de "certo" ou "errado". Reconhecer as duas formas e saber conviver com elas é sempre desejável.

Um forte abraço.

Menelau Júnior é professor de Português
menelaujr@uol.com.br

 
 
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