Quem não lembra estes versos, cantados pela inesquecível Elis Regina: "Os sonhos mais lindos sonhei/ De quimeras mil um castelo ergui"? Eles fazem parte da música "Fascinação", recentemente regravada pela dupla Sandy & Júnior. Colocados na ordem direta, teríamos: "Sonhei os sonhos mais lindos/ Ergui um castelo de mil quimeras".
Sabe-se que há diferenças entre letras de música e textos jornalísticos, por exemplo. Para cada tipo de texto, uma gramática, uma forma de expressar idéias. Em poesia, prevalece o sentido conotativo das palavras, as figuras de linguagem. Num texto jornalístico, prevalece o sentido denotativo das palavras, as frases na ordem direta, sem enfeites.
Um dos problemas de quem escreve é a repetição desnecessária. A ela chamamos Pleonasmo ou redundância. Nas aulas de Português, todos já ouviram falar de expressões como "subir para cima", "descer para baixo", "entrar para dentro", "sair para fora", "novo lançamento" entre tantas. São repetições que não acrescentam nada ao texto. É como a expressão "Há muito tempo atrás". Embora extremamente comum, é redundante. "Há" já indica passado, dispensando o advérbio "atrás". Em "Tanta saudade", gravada por Djavan, ouve-se: "Mas voltou a saudade/ É, pra ficar/ Ai, eu encarei de frente/ Ai, eu encarei de frente, menina/ Se eu ficar na saudade/ É, deixa estar/ Saudade engole a gente." "Encarei de frente" é redundante, pois a "cara" das pessoas já está na frente. Mas é uma repetição tão usada que poucos se dão conta dela.
Outras vezes, o pleonasmo é sinônimo de ironia. Quando alguém diz que "O Íbis perdeu a partida", pode ouvir do interlocutor algo do tipo "Isso é um pleonasmo". Se considerarmos que o Íbis, considerado o pior time de futebol do mundo, normalmente perde, faz sentido a brincadeira.
Isso faz com que muita gente pense que qualquer tipo de repetição é um vício de linguagem. Não é verdade. O pleonasmo vicioso deve ser evitado, é certo, mas existe o pleonasmo semântico, que constitui recurso lingüístico válido em determinadas situações.
No caso da música "Fascinação", o primeiro verso apresenta uma dessas repetições: "Os sonhos mais lindos sonhei". Alguém poderia perguntar: "Sonhar sonhos" não é redundante? É, mas claramente constitui um recurso expressivo da linguagem, poético. É o pleonasmo semântico. Não há problema algum em dizer "Sonhei um sonho esquisito esta noite". Esse tipo de repetição ocorre também quando alguém diz "Vi isso com meus próprios olhos". Nesse caso, a repetição está em nome da reiteração do sentido, da ênfase. Em poesia, é extremamente comum.
Até a próxima semana.
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